domingo, 19 de outubro de 2008

Crise financeira - os bebados nao pagam

Tudo começou no subprime. Brasileiro descobre forma de explicar a crise: "O Boteco do Seu Biu"
2008-10-12
JOSÉ MIGUEL GASPAR
Do subprime ao caos do capitalismo global, como é que a economia de mercado está a afectar a economia das pessoas do mundo real? Há algo que se consiga ver para lá da cortina colectiva do pânico?
Descer, cortar, baixar, reduzir, drasticamente depreciar, diminuir. olhar hoje para a primeira página de um jornal - todos os jornais da semana são súbitos jornais económicos, esquemas, diagramas, símbolos e montes alpinos a cair a pique - é sofrer um ataque de verbos alarmantes. No resto do ambiente há furacões, derisões, nacionalizações, quedas, crashes e perdas de mil milhões, todos os dias, todos por todos os lados assaltados.
Reduzidos a zeros e uns, aqui, abaixados e decrescidos, o que conseguimos ver realmente para lá da branca e transida cortina do pânico colectivo da crise? Realmente nada. A Bolsa teve esta semana a sua pior semana de sempre: a queda reduziu a menos de metade o valor de 11 cotadas do PSI-20, índice bolsista português; sete das principais empresas do índice recuaram mais de 60% este ano - Belmiro, só Belmiro, já terá perdido 2,3 mil milhões. Isto é economia real?
Economia real é isto: em Dezembro de 2005, uma prestação de crédito de 150 mil euros a 30 anos era de, mais cêntimo, menos cêntimo, 516 euros. A Euribor a seis meses estava a 2,639%. Hoje, com a taxa a 5,448%, o valor dessa mesma prestação é de 1065 euros, mais cêntimo, menos cêntimo. Confuso sobre aquilo que pode realmente fazer?
Olhemos para o lado, mais economia real: o incumprimento total dos particulares portugueses em Julho de 2008 era de 2.734 mil milhões de euros; a factura cresceu num mês 84 milhões. O que quer isto dizer? Que em cada dia de Julho os portugueses não pagaram ao banco 2,7 milhões de euros a que se tinham comprometido. Nas empresas, o aumento do incumprimento é de 1,9 milhões/dia.
O que aconteceu? Numa palavra: subprime. O crédito hipotecário concedido em condições de risco muito elevado, maximizado, multiplicado por mil e uma bolhas de especulação. Começou nos Estados Unidos em 2003, levou a uma espectacular subida do preço das casas e foi até 2006, viajando numa tão intensa velocidade de novas e tão complexas aplicações financeiras que só mesmo os grandes especialistas as entendiam - com os reguladores atrás, muito atrás dessa inovação banqueira. Com essa expansão global, e o seu excesso, percebeu-se que tudo estava assente numa coisa que não existia: o dinheiro não existia; o hipotecado não tinha dinheiro para pagar a hipoteca. O resto é como o dominó: cai uma, vai outra, cai em tombo total o valor das casas.
Mas como é que tudo isto é global ? Como é possível que o gesto de permitir o acesso a habitação a quem, noutras condições, nunca poderia ter casa própria se pode transformar neste monstro total?
Atendendo a que todos estamos no mesmo patamar - os confusos, os integralmente globalizados -, as explicações vão, vêm e sucedem-se, em permanente actualização, sem que se consiga perceber o que está no fim, no meio e no início.
Do olho do remoinho, a olhar para o chão, foi um brasileiro, autor anónimo, a encontrar a melhor das explicações, um exemplo prosaico de linguagem rasa, recta e real. A história chama-se "O Boteco do Seu Biu", já é adorada pelos especialistas, e está a cruzar os tops de trocas da Internet.
"O Seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça fiada aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender fiado, pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o valor extra que os clientes pagam pelo crédito).
O gerente do banco do Seu Biu, um ousado administrador, decide que as cadernetas de calotes do bar constituem, afinal, um activo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o fiado dos bêbados sempre como garantia.
Uns seis executivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e transformam-nos em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrónimo financeiro que ninguém sabe exactamente o que quer dizer.
Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas de calotes dos clientes do Seu Biu). Esses derivativos são negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
Até que alguém descobre o inevitável: que a garrafa tem fundo e que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas.
A descoberta do vazio arrasta consigo os mercados de 73 países, a bolsa de mercados e futuros, todos os bancos, o ousado administrador e o pobre do Seu Biu, o primeiro a ir à falência".
Conclusão brasileira de humor crocante: "O que aconteceu? Toda a cadeia sifudeu".

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